Amuse me

February 22, 2012 § Leave a comment

James acordava todos os dias às 6h17 – exceto domingos e feriados, além de outros dias santos. Não 6h15. 6h17. Ele não gostava do número 5 e nem de números pares. Nem de azul-turquesa.
Melissa, sua esposa, já não se estressava mais com os desgostos de James. Ela até achara charmoso e interessante nos primeiros meses de namoro.
Nessa terça-feira em particular (ou nessa particular terça-feira), James não conseguia dormir. Veja bem, ele andava preocupado com o filho na faculdade e a hipoteca da casa. Além disso, ele estava com o estômago embrulhado desde o dia anterior.
Portanto, às 6h17, James já estava de pé. Ou melhor, ajoelhado. No chão do banheiro. Com a cara enfiada no vaso.
‘É culpa daquelas porcarias que tu come no trabalho’, disse Melissa, ‘se tu viesse jantar em casa…’
‘Mas eu nem comi ontem’, responde James logo antes de ser acometido por um ataque de vômito.
‘Pior ainda. Tá vomitando o quê?’
‘Meus órgãos?’
James sentiou o enjôo passar levemente e levantou-se. ‘Passou’.
‘Vai ir trabalhar?’
‘Tenho que ir. Depois do incidente da semana passada tem muita papelada pra resolver.’

James trabalhava no Laboratório Farmacêutico da HSF, um dos maiores laboratórios do gênero no mundo. Nos últimos anos a HSF vinha sofrendo uma série de processos contra testes em animais e foi na semana anterior que um grupo de coelhos, que estavam sendo testados para uma nova droga contra o Alzheimer, escapou. Dos 60 coelhos, foram recuperados 57. Um foi encontrado morto dois dias atrás no sistema de ventilação.
‘A coisa mais curiosa do mundo aconteceu’, disse Jamile, uma das novas contratações da companhia, assim que James entrou no escritório.
Jamile era morena, tinha 24 anos e era tenista nas horas vagas. James vinha dormindo com ela desde o mês passado, na festa de despedida do antigo vice-presidente da companhia.
‘Sim?’, ele respondeu, pensandos nas 7 horas de sexo ininterrupto da sexta-feira passada no motel perto do laboratório.
‘O Dr. Zeller veio aqui me contar que o coelho 58, o que tinha morrido…’
‘Hum’, o estômago de James embrulhou e ele sentiou sua mão direita formigar e parar de responder aos seus pensamentos.
‘Que estranho’, ele murmurou.
‘…não morreu’, a voz de Jamile o trouxe de volta.
‘Oi?’
‘O coelho. Não morreu. Parece que era algum tipo de estado catatônico só.’
‘Hum’, agora o braço inteiro dele parecia não funcionar. ‘Eu vou pra minha sala’, ele falou, desatento ao que Jamile estava dizendo.

Fora alguns enjôos e idas ao banheiro, o resto da manhã passou sem maiores incidentes para James, fora o não-funcionamento do seu braço direito.
Às 13h, no horário do almoço, James foi encontrar Jamile no motel. O braço de James voltou a funcionar mais ou menos às 13h31. Às 14h18, quando ele atingiu o orgasmo, o mesmo braço quebrou a armação da cama do motel.
E às 18h30, quando James chegou em casa, o mesmo braço quebrou o pescoço de Melissa.
Às 18h33, James devorou metade do pescoço da sua esposa.
Por fim, às 20h33 – aproximadamente – Melissa, com seu pescoço meio devorado, comeu o cérebro do vizinho.

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