“Dêem-me café, vou escrever!”, últimas palavras de Olavo Bilac

October 2, 2008 § 2 Comments

Acabei de chegar do cinema da sessão do “Ensaio sobre a cegueira”, dirigido pelo Fernando Meirelles e logicamente baseado no livro do Saramago (que por sinal, não me perdôo por não ter lido, mas tava sempre locado na PUC).

Então, o filme é fantástico. Muito bem dirigido, com uns enquadramentos muito legais e bonitos mesmo, montagem muito interessante, fotografia me deixou meio assim no início (não os fades pro branco que eu achei uma boa sacada, mas alguns movimentos de câmera) e eu achei a trilha sonora perfeita. Achei os voice overs meio estranhos, me lembrou as aulas de roteiro da Ivana na faculdade, falando sobre como a gente não pode sair largando voice overs e fazer o espectador esquecer que eles estiveram lá algum dia, nem colocar muitos também.

O que realmente me fez achar o filme fantástico foi a história e esse crédito vai pro Saramago né. O Meirelles merece muito também porque conseguiu exprimir de um modo muito visual a decadência da situação e isso sempre dá crédito pro diretor, já que essencialmente cinema é (dã) visual.

Não sei também quanto do livro foi cortado, mas o filme deixa aquela sensação, e agora eu quoto a Peyton de One Tree Hill, que disse que depois de ver um show muito bom a gente tem esperança no mundo de novo. Foi assim que eu me senti depois de ver o filme, aquela sensação boa e a esperança de que filmes muito bons são feitos por aí, além do orgulho de ter sido um brasileiro (mesmo ele já tendo nascido milionário – a gente releva).

Posso ficar discutindo horas sobre como o filme retrata a degradação da sociedade, não no sentido de que isso aconteceria em situações limites, mas que isso já está acontecendo e ninguém percebe. A cegueira para a nossa natureza humana, que acaba levando as pessoas a agirem pelos seus instintos mais selvagens e cruéis. A cena do estupro coletivo é simplesmente embasbacante (e ao contrário do que a crítica disse, achei que não foi pesada – claro, relevando o fato de que é um estupro, logicamente é pesado, mas não me fez virar o rosto).
O Meirelles comentou que quando exibiu o filme em Toronto numa sessão teste, a platéia começou a ir embora na cena do estupro e na cena que a Julianne se vinga (deixo em aberto pra não largar spoilers) várias pessoas aplaudiram. Eu quase aplaudi (isso me lembra uma cena de “O Nevoeiro” também). E ele critica o fato de senhoras canadenses e civilizadas aplaudirem aquela situação. Isso me faz questionar bastante a minha própria natureza, porque eu com certeza faria o mesmo que ela fez. Isso me faz um animal? Isso me faz virar um exemplo da degradação humana?

Isso me lembra discussões em Gramado sobre como as pessoas reagiriam se toda a eletricidade acabasse. Enquanto a Sah, a Bruna e a Paola afirmavam que viraríamos animais selvagens e seguindo os nossos piores instintos, eu apoiei a frase de que “as pessoas não são tão podres assim”. Esse filme me fez rever meus conceitos (e só por isso já vale dizer que é um bom filme).

Enfim, “a única coisa pior do que a cegueira é ser a única que pode ver”, pela personagem da Moore.

Vale a pena dar uma lida no blog do Fernando Meirelles falando do filme (ele escreve muito bem por sinal): http://blogdeblindness.blogspot.com

Tagged: , ,

§ 2 Responses to “Dêem-me café, vou escrever!”, últimas palavras de Olavo Bilac

  • Stiborski says:

    eu tenho o livro, devia ter pedido pra mim emprestado! uhauhauha

    e o filme é MUITO fiel ao livro

  • dr. gonzo says:

    abandonou o blog? é assim que tu faz? ABANDONA TUDO? E QUER PERCORRER O MUNDO COM ESSA FALTA DE MOTIVAÇAO? HEIN? É ISSO? HEIN? HEIN?

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s

What’s this?

You are currently reading “Dêem-me café, vou escrever!”, últimas palavras de Olavo Bilac at "He didn't discover the world and it's people, he created them.".

meta

%d bloggers like this: